Havia um homem que amava muito uma mulher. Essa mulher o fazia muito feliz e, por ser tão feliz, ele dizia o tempo todo: “Te amo”.
A mulher, quando o ouvia dizer isso, sorria, o enlaçava pelo pescoço e pousava um carinhoso e quente beijo em sua boca. Mas ela nunca retribuía o amor dele com um “te amo”.
Nem em momentos de absoluta ternura mútua, nem na intensidade do sexo, nem no mormaço depois do prazer, nem quando ambos conseguiam algo e celebravam.
Ainda que ele palpavelmente sentisse na firmeza e na materialidade coesa e constante dos gestos, dos sorrisos e do olhar pleno de satisfação que o rosto e o corpo dela emitiam em sua direção, o “te amo”, nunca veio.
No início ele deixava por menos. Achava que aquilo não era importante. Mas com o marchar dos anos, tornou-se insuportável a contradição entre o que ela fazia e o que não dizia.
Ele tentou fazê-la entender o quanto era importante ouvir que era amado. Ela, por sua vez, insistia que não podia dizer o que não sentia. E suplicava, desesperada: “Nunca fui tão feliz como sou com você! Nossa felicidade, nossa vida, nosso dia a dia, não é suficiente?!”
“Não!”, gritou ele ferozmente, batendo a porta pra nunca mais voltar.
O homem enfrentou anos de um calvário para esquecer aquele amor não correspondido pela palavra. Até onde soube, a mulher que não dizia que o amava, até de cama ficou quando ele foi embora.
Mas ele se refez. Acabou por conhecer uma outra mulher que o embriagava fartamente de “te amo”. No início aquilo o envaidecia e nutria, repetindo para si mesmo: “isso sim é que é amor!”.
Porém, com o marchar dos anos, tornou-se insuportável. Pois a insistência com a qual era lembrado de que era amado evidenciava uma felicidade opaca, uma vida apática de um dia a dia sem sentido e sabor.
Até que um dia, caminhando na volta de uma consulta, ao dobrar uma esquina, viu a mulher que nunca lhe disse “te amo”. Ela estava com um outro homem, despedindo-se.
O outro homem entrou no carro e foi-se embora. Mas antes, estalou um beijo na bochecha da mulher que, em resposta, disse “te amo”.
Pelo encontro inesperado e por ter ouvido aquilo que sempre quis, ser dito a outro, ficou estatelado na calçada.
Ela o vê. Se aproxima.
Os dois ficam em silêncio.
“Você ouviu?”, pergunta ela.
“Ouvi”, disse ele.
Silêncio.
“Que bom que você encontrou alguém para dizer…”, ele prossegue.
Ela dá um meio sorriso e diz: “É. Eu o amo e digo. Mas gostava mais de quando eu era feliz”.

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